Todos-os-Alunos-Importam

By sabersimples

Nestes tempos conturbados da Educação em Portugal arrisco-me a questionar o papel dos professores: a falta de relevância dada à profissão docente, as longas horas passadas em tarefas burocráticas, a ausência de formação contínua (cursos ou conferências) porque não é possível despender tempo lectivo para isso, quando todos os outros profissionais têm esse direito. E porque não pretendia ser a única voz (e por isso parcial) neste espaço de discussão iniciei aqui um conjunto de testemunhos, de pessoas que ensinam e acreditam como eu: que todos os alunos importam e por isso há que fazer a diferença na nossa escola, na nossa comunidade e no nosso país…

Começo com o testemunho dos Cem mil professores que fizeram história no passado dia 8 de Março de 2008, em Lisboa, Portugal.

 

 

Testemunhos de professores:

 

João, 45 anos, docente desde 1980

“É simultaneamente uma fonte de tristeza pelas condições actuais de trabalho e pela falta de perspectivas futuras (não aconselho ninguém a escolher esta profissão…) mas também um espaço de luta porque considero que ainda não está tudo perdido.

Infelizmente, acho que muito do essencial já está condenado e esta profissão está condenada à proletarização, com a consequente perda de qualidade dos profissionais. Cada vez mais vai ser professor quem não conseguir ser outra coisa.

Agora pensem como me sinto – eu que escolhi esta profissão – porque me agradava tanto e vejo agora que se está a transformar num pesadelo sem perspectivas de se poder ganhar a vida decentemente e sem condições de conseguir exercer a actividade de forma satisfatória… Comecei a dar aulas em 1980 e apaixonei-me por isto de modo que dediquei a esta profissão toda a minha vida desde essa altura. E agora sai-me este Primeiro-ministro e esta Ministra da Educação na rifa como é que acham que me sinto?

- Sinto-me traído!

- Sinto-me enganado!

Sinto que estão a comprometer o futuro e a felicidade da minha classe profissional e sinto que estão a comprometer o futuro deste país de certeza que daqui a uns anos vão perceber que erraram, mas até lá muito mal vai ser feito e depois não sei se vai dar para endireitar a coisas.

Penso que daqui a 10 anos estamos como no Brasil : dois sistemas  de ensino: um público sem credibilidade e sem qualidade e um privado com grande qualidade e credibilidade.

Mas tanto num como noutro os professores vão ser assalariados tratados como tal, criados a cumprir uma função: num lado a dos escravos gregos que ensinam os filhos da classe dominante, no outro, a dos desgraçados que têm que aturar os feios, porcos e maus dos filhos dos portugueses pobres, feios porcos e maus não me identifica com nenhuma dessas tarefas.

Foi preciso chegar este governo para me fazer querer mudar de profissão e é nessa fase que me encontro actualmente

… Lamento …”

 

Ana, 52 anos, docente desde 1977

 

“O primeiro papel do professor é ouvir os alunos, partilhar o processo de aprendizagem, dando-lhe espaço para crescer e desenvolver-se em plenitude nas vertentes cognitivas, afectivas, psicomotoras nas áreas de formação geral, formação profissional e cidadania. Com esta instabilidade nas escolas e tantos papéis para preencher e tantas reuniões para frequentar passei a não ter tempo de preparar lições interactivas e projectos interessantes. Os alunos ressentiram-se com esta minha faceta transmissiva e teórica, que reflectem os conteúdos do manual que nada têm a ver com a vida e experiência dos alunos e com as suas realidades sociais. Estou cansada de remar contra a maré… Enquanto a Política da Educação não mudar…  Já não me apetece ensinar!”

 

Clara, 23 anos, foi docente pela primeira vez o ano passado – não pensa concorrer

 “Fui docente de Informática e pensava que tinha vocação para ensinar, mas infelizmente na primeira semana de aulas fui colocada numa escola nos arredores de Lisboa e não aguentei a violência e o stress que sentia só de observar a agressividade dos alunos e a indisciplina na sala de aula. Desisti ao final de um mês quando um dos alunos me atirou com uma cadeira, só porque o mandei calar-se e pedir desculpa aos colegas. O Conselho Executivo não me deixou apresentar queixa do aluno em questão e eu nunca mais consegui enfrentar uma turma, até hoje. Deixei de ser professora e actualmente trabalho numa empresa de informática. Desejo a todos os docentes a maior sorte e lamento que seja tão difícil defender a sua dignidade e não tenham mais alternativas profissionais.”

 

Francisco, 32 anos, docente desde 1997

 “Adorava ser professor mas actualmente sinto-me triste, desmotivado e com vontade de abandonar a profissão. Ser avaliado por um colega titular que não tem a minha visão construtivista do ensino aprendizagem que pratico na sala de aula, faz-me recear o pior. Na escola onde lecciono existem umas guerrilhas internas entre o Conselho Executivo e professores mais progressistas, o que me leva a pensar que me irão dar nota negativa. Sinto uma grande instabilidade a todos os níveis e confesso que me esqueço com frequência do meu papel como professor formador e sou cada vez mais professor transmissor, coisa que sempre abominei, mas com esta avaliação me estão a obrigar a fazer… Sinto que estou a renegar as minhas origens e a frustrar as expectativas dos alunos favorecendo a minha própria sobrevivência.”

“It is the supreme art of the teacher to awaken joy in creative expression and knowledge.” (Albert Einstein)

 

 

 

 

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4 Respostas para “Todos-os-Alunos-Importam”

  1. Saber Simples Diz:

    Coloque aqui o seu comentário sobre estes assuntos…

  2. Professor Ericeira Diz:

    José desde há muito professor

    “De um professor para a Sr.ª Ministra.
    Ex.ª Sr.ª Ministra Maria de Lurdes Rodrigues:

    A Sr.ª é uma governante, eu sou um professor.
    A Sr.ª passará à história

    Eu ficarei na memória de muitos jovens!
    A Sr.ª manda fazer e desfazer escolas.

    Eu vivo na e para a Escola.
    A Sr.ª decreta.

    Eu ensino e aprendo.
    A Sr.ª quer dirigir a justiça.

    Eu tento ser justo.
    A Sr.ª e outros governantes passarão…

    Eu e outros continuaremos a ensinar.
    A Sr.ª humilha-me.

    Eu só espero, aprendo e ensino!
    A Sr.ª fala… não ouve… decreta…

    Eu escuto.
    A Sr.ª quer dividir-nos.

    Eu ensino a multiplicar.
    A Sr.ª recebe abraços comprometidos

    Eu recebo abraços sinceros.
    A Sr.ª ataca-me (nos)

    Eu “defendo-me”…
    A Sr.ª tem 3 anos de governo; irá aos 4…

    Eu tenho muitos mais anos de docência.
    A Sr.ª dá subsídios

    Eu pago os impostos.
    A Sr.ª governa.

    Eu educo.
    A Sr.ª corta fitas.

    Eu corto “correntes”.
    A Sr.ª terá muitas coisas.

    Eu adiciono conhecimentos.
    A Sr.ª ordena.

    Eu procuro e encontro acordos.
    A Sr.ª reparte.

    Eu comparto.
    A Sr.ª tem o que gasta, pago.

    Eu pago o que gasto.
    A Sr.ª foi convidada…

    Eu sou professor por concurso
    e… porque amo o que faço.
    A Sr.ª tenta ganhar votos.

    Eu ensino a votar e a “voar”!
    A Sr.ª é só uma governante.
    Eu sou um professor!”

  3. Kerberos Diz:

    He traducido esta entrada al castellano. La traducción en español está en http://iliada-odisea.blogspot.com/2008/04/todos-los-alumnos-son-importantes.html
    Espero que perdone mi atrevimiento. Es muy importante para los docentes de España saber que no estamos solos cuando sentimos lo mismo que nuestros colegas portugueses. Saludos muy cordiales.

  4. sónia Diz:

    Partilho com todos estes colegas os mesmos sentimentos, por isso participei tão afincadamente na nossa bela manifestação que demonstrou ao mundo o quão desanimados estamos no meio deste processo. Diria desencantada… Diria infeliz… Aquilo que sempre quis ser e tenho explorado com tanto amor (para ser professor é preciso ter toneladas de amor para oferecer) parece agora uma teia onde me encontro e já sem tempo para escapar. Resta-nos alguma esperança que tudo mude, porque “todos os alunos importam” e são eles que mais perdem. Todavia, os professores estão divididos, empertigados, infelizes e isso também não é bom para a nossa saúde mental e física. Só neste 3º período, na minha escola existe dezena de colegas com baixa médica prolongada…

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