Panorama geral nas Escolas

Outubro 24, 2008

Mais um contributo de uma colega , demonstrando o caos que neste momento acontece nas escolas.

Pediram a divulgação e aqui vai para quem tiver interesse no tema.

Enviada: terça-feira, 21 de Outubro de 2008 15:49
Subject: Divulguem junto dos alunos e dos pais

Aos Alunos, Professores E Associações De Pais

– Porque é bom estar precavido contra as informações, tantas vezes
falaciosas, dos media e a campanha enganadora, folclórica, do ME …

– Porque, sobretudo, todos queremos o bem dos nossos alunos / dos
nossos filhos, e uma escola pública de qualidade, impõe-se uma
reflexão, e uma divulgação:

 Por que razão acabam os alunos tão prejudicados por estes modelos
educativos, por este  processo de avaliação dos seus professores?

1. desde logo, as passagens quase administrativas que se antevêem (e a
ministra apregoa sem pudor) e que mais tarde conduzirão esta geração
(que, ainda por cima, vai competir com alunos de países europeus que
levam a educação muito a sério)- apenas – ao desemprego.
Passagens essas (as estatísticas do sucesso), convém saber, que
condicionam a avaliação dos professores e a cujo apelo apenas alguns
(muito poucos) resistirão.

2. os Cursos de Educação e Formação (CEFS) em que o aproveitamento dos
alunos que os integram (os que não conseguem ou não têm apetência por
frequentar um curso de currículo ‘normal’) é um ‘dado adquirido’ – e
exigido pela tutela, seja qual for o nível das suas aprendizagens
(normalmente zero, não nos iludamos…) .
Em que estes alunos, conscientes da inimputabilidade dos seus
comportamentos e do ‘sucesso’ que lhes é, à partida, garantido,
inviabilizam sistematicamente qualquer tentativa de se lhes ensinar o
que quer que seja, fazem gala em evidenciar uma total ausência de
empenhamento ou de interesse (seja pelo que for) e transformam a vida
dos seus professores num inferno.
Futuro, mais que previsível – assegurado, para estes alunos: o
desemprego, eventualmente a marginalidade

3. prejudicados, também (e muito!!) virão (estarão já) a ser, todos os
alunos, pelo estado de exaustão em que se encontram os seus
professores (e ainda agora começámos o ano lectivo), resultante de um
processo burocrático que lhes consome tempo e energias para
actividades alheias ao trabalho das aulas, por horários de permanência
na escola para além de qualquer limite razoável e sem condições
mínimas de trabalho, que os impedem de fazer aquilo que
verdadeiramente interessaria: preparar aulas e materiais de apoio às
aprendizagens dos seus alunos – em casa – que é onde melhor o fazem
(onde sempre o fizeram…) , pura e simplesmente porque é aí que têm as
condições necessárias.

Desta exaustão dos professores decorrem consequências inevitáveis:

– as aulas mal preparadas ou improvisadas
– a falta de paciência para com os alunos
– a demora na entrega dos testes e outros trabalhos
– a falta de saúde que se seguirá (que está já a afectá-los…)

É bom que se saiba que grande parte dos professores deste país já só
se ‘aguenta’ à base de antidepressivos, ansiolíticos, calmantes, e ..
cafés. Que grande parte vem tendo já muita dificuldade em dormir.
Avaliem, então, do estado em que estarão, quando lidam com os vossos
filhos…

É bom que se saiba, também, o que todos nós, professores (se calhar de
todas as idades), já receamos: mais cedo ou mais tarde, ou ficamos de
baixa, ou morremos! E não, não é exagero! (antes fosse.) Já no ano
passado, foram inúmeros os casos de AVC a meio da aula, os casos de
‘n’ professores a terem de ser assistidos nas urgências dos hospitais
porque a tensão arterial de repente ‘disparou’, em resultado do
stress, do excesso de trabalho, do desgaste em que se traduzem horas e
horas  improdutivas passadas na escola , e das campanhas difamatórias
a que vêm sendo sujeitos desde que esta equipa ministerial entrou em
funções.

Então … parece-me claro: o futuro dos nossos alunos (e temo que
próximo, muito próximo) só pode ser este: turmas e turmas sem aulas
porque o professor ‘rebentou’ .

E levará tempo, muito tempo, até que a escola, o ministério, reponham
as baixas. Até que nos substituam por outros masoquistas/
missionários. Esperemos, a bem dos nossos alunos, que não-mercenários.
E não, não haverá Magalhães que lhes valham…

E é precisamente isto, colegas, amigos, mães e pais, que, na minha
opinião, os nossos alunos, os seus Encarregados de Educação, deveriam
saber. E que está nas nossas -nas vossas- mãos explicar-lhes. Já.

Os filhos das classes ‘privilegiadas’ optarão por colégios
particulares. Todos os outros verão o seu futuro seriamente
comprometido: pelo baixo nível de exigência, pelo facilitismo, e pelo
decorrente clima de indisciplina, de violência, que só poderá
agravar-se.

A escola pública portuguesa, que até há bem pouco tempo tinha mais
qualidade e melhores profissionais que a privada, irá brevemente
reproduzir o modelo das escolas americanas que vemos nos filmes. Irá
reproduzir, também, os actos violentos, impensáveis, que ocorrem nas
escolas dos EUA, cujos ecos periodicamente nos chegam, carregados de
horror.
É esta a meta desta equipa, no ME. Em nome da redução do déficit, da
construção de uma imagem eleitoralista, de estatísticas fictícias para
‘Europa ver’.
É este o panorama , o futuro, de que temos, todos, de estar cientes. A
tendência que temos, todos, obrigação de contestar, de inverter. Em
nome dos nossos alunos, dos nossos filhos, dos filhos deles.

Saudações,

Ana Lima

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Ser Professor é…

Abril 7, 2008

A teacher affects eternity he can never tell, where his influence stops.” (Henry Brooks Adams)

O professor tem um papel activo na comunicação do conhecimento (transferindo-o para um formato mais simples de acordo com a audiência) de modo a ser compreendido e ser usado na aprendizagem dos alunos quer em contextos de ensino formal quer em outras opções não formais. O objectivo é tornar o aluno sujeito da aprendizagem e o professor o facilitador e o mediador do processo ensino aprendizagem.

Outro dos papéis do professor é estimular a curiosidade da descoberta das novas abordagens de uma mesma realidade, analisando o seu impacto e sintetizando as suas características, aplicando no dia-a-dia e actualizando sempre que necessário os conhecimentos teóricos subjacentes. Esta permanente “reciclagem” tem de ser um dado adquirido na função docente e que deve transparecer para os alunos de uma forma natural como um constante questionamento e espírito crítico.

As novas exigências tecnológicas exigem um partilhar de linguagens e de conteúdos interactivos no contexto de sala de aula e em ambientes de E-Learning, tendo sempre por finalidade estimular estratégias de aprendizagem e incluir cada aluno levando-o a participar, a apresentar soluções criativas e ideias originais.

Para que o papel do professor “se cumpra” é necessário promover a formação, o debate entre pares e deixar os docentes realizar com sucesso a sua tarefa de promotores da cidadania: preparando aulas e projectos, participando na comunidade escolar e na vida da instituição em toda a sua plenitude.

“It is the supreme art of the teacher to awaken joy in creative expression and knowledge.” Albert Einstein

Todos-os-Alunos-Importam

Abril 6, 2008

Nestes tempos conturbados da Educação em Portugal arrisco-me a questionar o papel dos professores: a falta de relevância dada à profissão docente, as longas horas passadas em tarefas burocráticas, a ausência de formação contínua (cursos ou conferências) porque não é possível despender tempo lectivo para isso, quando todos os outros profissionais têm esse direito. E porque não pretendia ser a única voz (e por isso parcial) neste espaço de discussão iniciei aqui um conjunto de testemunhos, de pessoas que ensinam e acreditam como eu: que todos os alunos importam e por isso há que fazer a diferença na nossa escola, na nossa comunidade e no nosso país…

Começo com o testemunho dos Cem mil professores que fizeram história no passado dia 8 de Março de 2008, em Lisboa, Portugal.

 

 

Testemunhos de professores:

 

João, 45 anos, docente desde 1980

“É simultaneamente uma fonte de tristeza pelas condições actuais de trabalho e pela falta de perspectivas futuras (não aconselho ninguém a escolher esta profissão…) mas também um espaço de luta porque considero que ainda não está tudo perdido.

Infelizmente, acho que muito do essencial já está condenado e esta profissão está condenada à proletarização, com a consequente perda de qualidade dos profissionais. Cada vez mais vai ser professor quem não conseguir ser outra coisa.

Agora pensem como me sinto – eu que escolhi esta profissão – porque me agradava tanto e vejo agora que se está a transformar num pesadelo sem perspectivas de se poder ganhar a vida decentemente e sem condições de conseguir exercer a actividade de forma satisfatória… Comecei a dar aulas em 1980 e apaixonei-me por isto de modo que dediquei a esta profissão toda a minha vida desde essa altura. E agora sai-me este Primeiro-ministro e esta Ministra da Educação na rifa como é que acham que me sinto?

– Sinto-me traído!

– Sinto-me enganado!

Sinto que estão a comprometer o futuro e a felicidade da minha classe profissional e sinto que estão a comprometer o futuro deste país de certeza que daqui a uns anos vão perceber que erraram, mas até lá muito mal vai ser feito e depois não sei se vai dar para endireitar a coisas.

Penso que daqui a 10 anos estamos como no Brasil : dois sistemas  de ensino: um público sem credibilidade e sem qualidade e um privado com grande qualidade e credibilidade.

Mas tanto num como noutro os professores vão ser assalariados tratados como tal, criados a cumprir uma função: num lado a dos escravos gregos que ensinam os filhos da classe dominante, no outro, a dos desgraçados que têm que aturar os feios, porcos e maus dos filhos dos portugueses pobres, feios porcos e maus não me identifica com nenhuma dessas tarefas.

Foi preciso chegar este governo para me fazer querer mudar de profissão e é nessa fase que me encontro actualmente

… Lamento …”

 

Ana, 52 anos, docente desde 1977

 

“O primeiro papel do professor é ouvir os alunos, partilhar o processo de aprendizagem, dando-lhe espaço para crescer e desenvolver-se em plenitude nas vertentes cognitivas, afectivas, psicomotoras nas áreas de formação geral, formação profissional e cidadania. Com esta instabilidade nas escolas e tantos papéis para preencher e tantas reuniões para frequentar passei a não ter tempo de preparar lições interactivas e projectos interessantes. Os alunos ressentiram-se com esta minha faceta transmissiva e teórica, que reflectem os conteúdos do manual que nada têm a ver com a vida e experiência dos alunos e com as suas realidades sociais. Estou cansada de remar contra a maré… Enquanto a Política da Educação não mudar…  Já não me apetece ensinar!”

 

Clara, 23 anos, foi docente pela primeira vez o ano passado – não pensa concorrer

 “Fui docente de Informática e pensava que tinha vocação para ensinar, mas infelizmente na primeira semana de aulas fui colocada numa escola nos arredores de Lisboa e não aguentei a violência e o stress que sentia só de observar a agressividade dos alunos e a indisciplina na sala de aula. Desisti ao final de um mês quando um dos alunos me atirou com uma cadeira, só porque o mandei calar-se e pedir desculpa aos colegas. O Conselho Executivo não me deixou apresentar queixa do aluno em questão e eu nunca mais consegui enfrentar uma turma, até hoje. Deixei de ser professora e actualmente trabalho numa empresa de informática. Desejo a todos os docentes a maior sorte e lamento que seja tão difícil defender a sua dignidade e não tenham mais alternativas profissionais.”

 

Francisco, 32 anos, docente desde 1997

 “Adorava ser professor mas actualmente sinto-me triste, desmotivado e com vontade de abandonar a profissão. Ser avaliado por um colega titular que não tem a minha visão construtivista do ensino aprendizagem que pratico na sala de aula, faz-me recear o pior. Na escola onde lecciono existem umas guerrilhas internas entre o Conselho Executivo e professores mais progressistas, o que me leva a pensar que me irão dar nota negativa. Sinto uma grande instabilidade a todos os níveis e confesso que me esqueço com frequência do meu papel como professor formador e sou cada vez mais professor transmissor, coisa que sempre abominei, mas com esta avaliação me estão a obrigar a fazer… Sinto que estou a renegar as minhas origens e a frustrar as expectativas dos alunos favorecendo a minha própria sobrevivência.”

“It is the supreme art of the teacher to awaken joy in creative expression and knowledge.” (Albert Einstein)